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Era um homem alto, tão seco de carnes como de palavras. Não falava com ninguém; que se soubesse.
Nunca dizia mais do que aquilo que era estritamente necessário para comunicar um desejo, uma vontade.
Era tido como antipático, ensimesmado, distraído… havia até quem o tomasse por louco… inofensivo mas louco, coitado.
Amigos não se lhe conhecia o rosto e amores não havia memória de alguma vez os ter tido. Vivia com uma gata preta como carvão
que como o velho não era de grandes amigos. Parece. Parece, porque nada era certo, que a gata dava pelo nome Bastet.
O Homem quando na rua se cruzava com alguém levava a mão ao chapéu que já fora castanho e que agora era de uma cor entre o indefinível e o incerto numa saudação que à muito era desusada… mas bom dia, boa tarde é que ninguém ouvia.
À noite não saia.
Diziam as línguas pelas esquinas que era reformado de uma repartição.
As certezas iam do rico sovina ao pobre de meter dó, conforme a alma que botava opinião. Pois então? Não bastava olhar para o colarinho puído da camisa branca (sempre a mesma juravam), ou para o casaco que já vira melhores dias (com um botão de cada nação)… já para não falar das calças que estavam no fio ou dos sapatos gastos de tanto palmilhar? E depois aquela falta de carnes a cobrir os ossos? Só podia ser pouco pão para tanta gafa.
Só o saco. Só o saco metia confusão a quem pelos cantos ia ajuizando o personagem… Todos os dias pela manhã saía ainda o Sol era promessa, de saco dobrado na mão ossuda. E quando pelo meio da tarde voltava já o saco vinha bojudo (umas vezes mais outras menos), mas sempre por lá vinha “coisa”. O quê? Ninguém sabia. Falar. Falar; mas … Imaginar histórias e desatar a língua era mais fácil que lá de coragem não eram feitas as comadres para perguntar.
Os anos foram passando como Deus quer e a Natureza manda e tudo se repetia na vida. A seguir ao dia vinha a noite e depois outro dia e mais uma noite. Lá se finava uma comadre (tão boa pessoa), logo outra lhe tomava o lugar, que isto de comadres e compadres está o mundo cheio.
Mas um dia amanheceu a rua diferente. Corria como fogo espalhado pelo vento à boca pequena que o homem de poucas palavras tinha morrido. Nesse mesmo dia, e para espanto mudo da rua, foi ver quem pode a quantidade de palavras que saíram daquele número 7 térreo onde habitava o velho.
Milhares…milhões de palavras, brochadas, encadernadas.
Afinal o homem não era de poucas palavras tinha era pouco a dizer a quem o não entendia. Após terem as palavras voado livres na busca de outro interlocutor Bastet abandonou também o local. Supõe o narrador desta história que tenha seguido as palavras…
E o saco? Ora o saco era onde levava o pão do dia para a janta e o rabo de pescada embrulhado em jornal do dia que nem só de livros vive um homem e uma gata… mesmo que de poucas palavras.

António Patrício Pereira

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fotografia / Brian David Stevens (Reino Unido)