Respirar negro

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Neste dias
em que o meu rosto se abate sobre o pó do caminho
há um fio de sangue
que me escorre pelo canto da boca,
sabor acre, férreo;
Um bando de corvos no seu paciente labor alado,
lança-se,
ávido,
sobre a carcaça que sou
rasgando pedaços de carne;
Festim espavorido de asas sombrias
Fico na imobilidade do gesto
que me tolhe os membros
e vou cravando, como garras inúteis,
os dedos na terra.
Conservo, ainda, o brilho nos olhos lavados…
Ao longe consigo ouvir
o riso das hienas,
carpideiras em soturnos funerais;
Vão tecendo a espera da noite pardacenta
para se banquetearem com os restos
deste cárcere, apodrecendo ao sabor do tempo.
Não se farão tocar os sinos retumbantes
da compaixão dos vivos;
De mim restará um passado disforme
e os ossos enxutos do que foi…

António Patrício Pereira

Pesadelo, ou talvez não.

fotografia / Jack Barnosky (EUA)

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