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Não me lembro. Já não me lembro ao certo que idade tinha; oito, nove anos? Por aí. Chovia como se o mundo fosse deixar de ter terra firme. Encostado ao vidro da janela via os que, vergados, ainda se aventuravam rua fora ou os carros que passavam na estrada. Num tempo onde o rádio fazia as honras da casa e o telefone era para gente de teres e haveres lá por casa não havia o segundo e na primeira era ponto assente seguir “Parodiantes de Lisboa” e a radio-novela “Simplesmente Maria” um “dramalhão” de fazer o mulherio chorar mesmo que não fossem Madalenas. Lembro-me que estava a dar o “folhetim”, como se dizia, e alguém chamou a minha mãe para ir ao telefone da padaria, o “serviço de telefone” mais perto e com a caixeira da padaria como operadora. Ó Lena vem ao telefone… é o teu marido! Não me mexi de onde estava e vi a minha mãe atravessar a estrada de guarda chuva em punho. Foi breve a chamada. Quando voltou esqueceu o guarda chuva a porta aberta e os cuidados com a água…. chamou por mim… contrariado lá fui. Um plástico enorme estendido no chão e a minha mãe em fúria a tirar todos os livros das estantes foi o que vi. De olhos arregalados e com o ralho da minha mãe ajudei a tirar para vários sacos livros, papéis, jornais, revistas.
O peso era muito para a minha mãe e eu ainda fazia mais peso nos sacos ao tentar levanta-los. Foi uma vizinha que acudiu… uma de cada lado e eu a “comandar as tropas” foram levando os sacos para a horta que cultivávamos nas traseiras da minha casa. Depois havia que abrir um buraco na terra mole e enterrar os sacos com os livros e a papelada… Uma tarde foi o que durou a empreitada. Quando acabamos de “sepultar” as palavras escritas estávamos os três encharcados e enlameados até aos ossos. Ainda à chuva foi-me apontado um dedo e um aviso soou: “Tu não sabes de nada, não viste nada… se abres a boca desfaço-te à porrada”. Aquela da porrada era remédio santo… eu já nem sabia porque estávamos ali à chuva! E depois andar à chuva a chapinhar na lama era uma brincadeira bem boa… e ninguém me ralhava por isso; uma “festa”.
Só à noite, depois de banho tomado e de mais uns quantos avisos de ir cair nas profundezas dos infernos não sem antes levar uma sova, caso abrisse a boca, soube o que se tinha passado.
O meu pai fora avisado por um camarada e mandou a minha mãe enterrar tudo. A PIDE andava a “farejar” pelo Algueirão-Velho (onde ainda hoje mora a minha mãe), e o meu pai era um dos nomes referenciados como comunista pelo bufo da terra.Não me lembro quanto tempo estiveram os livros enterrados, mas poucos meses depois deu-se o 25 de Abril e com o meu pai fui desenterrar a “papelada”… ainda hoje tenho muitos desses livros, testemunhas de um tempo em que pensar era subversivo e perigoso. O drama é que vejo aos poucos a “coisa” a voltar a ser subversiva e perigosa… pensar, bem entendido.

António Patrício Pereira

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