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Ele entrou, escolheu a mesa com um olhar rápido, sentou-se e pediu um café. Viu, através do reflexo dos vidros imensos uma silhueta, outras passaram apressadas… ou, pela pouca atenção que lhes dava, assim parecia.
Pegou, num gesto mecânico de quem não sabe o que fazer às mãos, no jornal do dia anterior; outro não havia. Levantou a cabeça e esqueceu as páginas de cantos dobrados e com a primeira folha um pouco rasgada na parte inferior que os dedos ainda seguravam.
Foi-lhe servido um café preto, amargo como a vida; juntou-lhe os doces cristais, tão doces como o sangue que lhe corria nas veias.
Esqueceu o jornal e o momento, fechou os olhos e bebeu de um só gole. Por um instante apagou da existência, os dias, os anos… perdeu a noção do tempo e das vozes que enchiam o ambiente de um ruído, quase ondular.
Quando voltou a abri-los, a realidade atropelou-lhe os sentidos. Ali estava o jornal amassado por outras anónimas mãos, a chávena vazia e um pacote de açúcar, tão vazio como a chávena … como a sua vida. Pagou.
Saiu alheado. Ainda olhou para trás… era agora mais um vulto nos vidros da pastelaria.

António Patrício Pereira

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