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Um dia, há muitos anos, tinham-lhe dito, e ele acreditara, que um futuro brilhante o esperava. Que percorreria o caminho dos justos, o caminho que o levaria a um jardim escondido, cheio de doçura e prazer. Teria de trabalhar afincadamente para o conseguir, mas o sucesso na empreitada que é a vida, a sua vida, seria garantido. Reflectia. E enquanto ia desfiando os pensamentos via, de olhos bem abertos, não o eléctrico que passava ou as pessoas que calcorreavam pelo passeio como espectros sem tempo , mas sim a sua existência… inteira.
Ali estava ele, sentado no banco velho do jardim. Tão velho como o seu velho corpo. Tinha feito dos dias corrida de trabalhos, dera vida a outras vidas…E Justo? Fora-o o quanto os Homens lho permitiram. Vivera segundo as regras dos Homens, que outras não conhecia, e no entanto… cansado da jornada, ainda esperava a chegada ao tal jardim. A crença no paraíso prometido já era pouca, os ossos gritavam-lhe o peso do tempo e a pele era mapa onde as horas iam anotando as alegrias e tristezas que lhe tinham curtido o ser.
Via o que não olhava e pensava: O que de errado teria feito? Quando se teria ele enganado no caminho?
O Sol deixara o velho jardim, o fim de tarde trouxe o vento e o fresco com ela.
Aconchegou a gola do casaco ao pescoço. Um arrepio tinha-lhe roubado o pensamento; Olhava agora o que via; Os pombos despediam-se do dia e povoavam os beirais e as sacadas dos prédios…
Vira como nunca. Naquele jardim, apenas os mortos entram.
Tinham-lhe mentido. Não era a vida que lhe prometiam mas sim a morte.
Dentro da sua lúcida visão a realidade cortava como aço fino… já faltava pouco para chegar ao fim do engodo. Correra como louco para chegar à morte. Pela primeira vez na sua longa vida via o quanto tinha sido cego.
A noite impunha o seu manto sobre a cidade… por agora ficar-se-ía por aquele velho jardim… tão velho como ele.

António Patrício Pereira

fotografia / Filip Meutermans (Bélgica)

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