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Quando a vida me chegava aos joelhos,
em azul sarja desbotado,
eu era ainda um ser eterno;
Nas costas ossudas cruzavam-se os suspensórios
que seguravam todos os sonhos
e a liberdade ficava ao vento, desfraldada,
por fora dos calções
deixando à vista um pedaço da pele que me cobria o tempo
e o corpo magro.
Do passado não lhe conhecia o sabor,
não me assombrava a idade,
nada tinha eu deixado para trás nos dias que bebia sôfrego.
E o futuro? Não fazia parte do meu léxico…
Era lá tão longe…
Terra estranha num mar desconhecido em que não navegava ainda.
Do presente não lhe sabia o nome;
Era o momento, o meu mundo,
que vestia desalinhado.
Media as horas pela velocidade do vento
e pelo cansaço do meu corpo esguio de réptil inquieto.
Hoje,
que a vida me cobre as pernas de azul ganga,
já perdi a ilusão da eternidade
e aos sonhos vou tentando avivar as cores
que a existência teima em apagar
para não me deixar morrer magro até aos ossos…
Já do passado fiz vivências
que fui deixando pelo caminho
em dores paridas e alegrias que vou levando
nos olhos gastos de tantas madrugadas ver nascer.
Do presente tento fazer presença com este meu corpo
que atravessa o lume que é viver… vão ficando as cinzas
das horas amargas.
Do futuro já lhe vou pisando o chão,
sentindo o cheiro e navegando caminhos na sua
direcção… está logo ali,
ao alcance do coração
que me leva até ao outro lado de mim;
assim vou, pegando firme o leme deste frágil barco
em direcção à bóia que sinaliza o fim do caminho navegável e do ser.

António Patrício Pereira

Breve relato de uma vida em tons de azul

fotografia / Junichi Hakoyama (Japão)

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