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Para que estas mãos trémulas não se ausentem
das palavras
preciso de memórias, sonhos, pesadelos;
preciso da cidade reflectida nos olhos… nos nossos olhos;
Com o teu corpo, madrugada de luz afiada que trespassa
o meu peito cansado da vertigem da noite,
despeço a tristeza.
Vamos desfiando o degredo que nos roubou o dia,
que nos rouba os dias.
Ao nosso redor a cidade cresce nas horas
que um cacilheiro marca a meio do rio;
buzina que sobressalta os corações pousados na beira água.
E as palavras vão-nos pesando nas pálpebras;
Os néons assinalam o percurso
da despedida enquanto nos vestem o rosto de cores fantasmagóricas.
Dobramos a aresta mineral d’um prédio anónimo
e os corpos numa despedida relutante; as nossas bocas
trocam os últimos segredos…
Amanhã a cidade voltará a ter noite, rio e amantes;
E nós voltaremos a ser náufragos.

Nestas minhas mãos trémulas levo recantos
ainda vivos do teu corpo.

António Patrício

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ilustração / Paul Ratingan (Reino Unido)