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Ainda não tinha entendido como fora aquilo acontecer. Ele que era tão cuidadoso, tão meticuloso. Avaliava sempre os prós e os contras.
Mas a verdade é que acontecera; e logo agora que vinha aí a época da pesca, de que ele tanto gostava.
Fez da noite clara insónia quando se levantou, foi a custo que meteu os pés no tapete felpudo que a sua querida mãezinha (que Deus a tinha), lhe oferecera já a memória se tinha esquecido quando, só com um objectivo… ir tratar de resolver esta complicação que tanto lhe estava a preocupar as horas da vida.
Logo agora. Logo agora; repetia de quando em vez para os seus botões num desespero incrédulo.
Lavou a insónia da cara e vestiu o corpo magro;
de tão distraído nem reparou que calçara uma meia carregada de Inverno num pé e no outro era um Verão radioso que brilhava com o seu pé no interior.
Desceu as escadas ainda sem atinar no que fazia talvez por isso tenha cumprimentado o gato Tadeu e enxotado a vizinha Ermelinda, a porteira do prédio.
Na rua apanhou um táxi e indicou-lhe o destino, esse malandro que todos querem conhecer e ninguém sabe onde é… por isso o chauffeur (como gostava ele de dizer), pediu-lhe a morada.
Com a urgência a gritar no olhar lá lhe disse o nome da rua para onde queria ir; não sem antes ter voltado a balbuciar: Logo agora!
Ali estava parado em frente ao edifício de paredes brancas, simples… umas quantas janelas e uma porta das que abrem e fecham (dizem que é como qualquer porta mas não é bem assim). Já tinha consulta marcada… Depois de no guichet (também gostava de dizer assim), ter dado o nome do seu corpo foi directo para o consultório.
Entrou, com a atrapalhação, só depois bateu à porta sem cor… queria a todo o custo falar com o médico que o olhou com um sorriso acolhedor nos lábios.
Atónito, imóvel, ali estava o seu paciente de pé com o coração na concha das mãos a bater acelerado… Mandou-o sentar. Que tivesse calma, não seria nada de grave.
Auscultou-lhe as palavras e mediu-lhe a vontade e ajeitou-lhe o coração de volta ao peito… Era certo.
De olhos arregalados perguntou: Então doutor é grave?
Com uma bonomia tranquilizadora lá lhe disse o médico:
Parabéns. O senhor está apaixonado.
Sem saber o que dizer… só deixou escapar um lamentoso:
Logo agora que vai começar a época da pesca!

António Patrício

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fotografia / Raphael Guarino (Alemanha)