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Estava no fim do caminho. Agora o pouco que lhe restava para ganhar o descanso merecido gastava-o a rever a sua vida. Vivera pelas regras impostas por quem mandava nunca questionando, sempre obedecendo, sempre cumprindo.
Tinha fugido das palavras. De todas as palavras; ler não lia, falar nem pensar.
Vivia num silêncio de catedral, mas até isso, por vezes, o deixava com os nervos à flor da pele, os sonhos aproveitavam-se… E se alguém falava? Recusava ouvir. Vestia uma capa de indiferença e ia espairecer os sentidos para outro lugar.
Nem o som dos elementos suportava. Era terrível; à mínima brisa lá vinham os sonhos. Tudo servia aos sonhos para se insinuarem e ele era um homem racional, obediente, cumpridor.
Lutava contra os sonhos com todas as suas forças; desprezava tudo o que fosse manifestação humana que transportasse o sonho no ventre.
Aos escritores desprezava, aos poetas queria mal, aos pintores achava-os trapaceiros e os músicos? Desses nem sabia o que dizer … Todos eles uma corja de parasitas que se alimentavam da ilusão que criavam na cabeça de cada um. Sonhadores era o que eram. Perigosos agitadores subversivos.
Detestava as gargalhadas… o que o inervavam as gargalhadas.
Nunca tinha amado. Amar era terreno fértil para os sonhos.
Aos sonhos tinha-os como um perigo; levam os homens a suspirar, querer o que não têm, a ser o que não devem ser… livres!…
Por vezes os sonhos instalam-se no coração dos homens e levam às revoluções; e isso era a sublevação das regras e as regras eram para ser cumpridas… não questionadas.
Interrompeu o fino fio do pensamento… sentia uma fraqueza imensa, estava cansado.
Piorava a olhos vistos; o corpo definhava e a respiração já só era um breve sopro fraco…
O médico à cabeceira ia-lhe dando alguma força resignada. Sabia que o final estava perto para aquele homem que atravessava o que lhe restava da vida; em jeito de palavra reconfortante perguntou-lhe: se queria mais alguma coisa?
Viu no rosto terroso, que até aí se tinha encontrado vazio, nascer um ensaio de sorriso e nos lábios bailar uma palavra… VOAR.
Foi de espanto o silêncio envolvente…
Ele próprio espantado e de olhos bem abertos voou rumo à eternidade de braço dado com o sonho; Era o primeiro da sua adiada vida.
Diz quem viu que tinha um sorriso nos lábios frios quando foi a enterrar… ou estaria, ainda, a sonhar?

António Patrício

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desenho / Pablo Auladell (Espanha)