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Já ali estava fazia tempo. Tanto tempo que até o tempo se esquecera dele, ali abandonado, no seu regaço.
Sentado no pequeno barco de madeira, em imobilidades tidas por quem espera ia lendo o voo das gaivotas página a página, nas mãos segurava a cana de pesca, linha retesada.
Esperava que a vida mordesse o isco… difícil pescaria, ele sabia, por isso esperava.
E enquanto o fazia era embalado pelo som espumoso das ondas que arrumavam os grãos de areia da praia numa lisura que espelhava o Sol, as nuvens e a viagem lenta dos seus pensamentos.
Por vezes olhava à sua volta e via, sem ver, o mar de areia onde navegava…
Só se apercebeu que talvez aquele não fosse o melhor local para pescar a vida, quando um banhista lhe gritou impropérios vários e das mais variadas cores… acabara de espetar o pé no anzol!
Olhou para o banhista resignado e desiludido… Cortou a linha, saiu do barco e arrumou a cana de pesca ao ombro… afastou-se pensativo, deixando o banhista a fazer coro com as gaivotas…
Teria de mudar de praia… Queria pescar a vida e acabara por ser um banhista a “morder” o anzol.
Depois viria buscar o barco!

António Patrício

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fotografia / Dariusz Klimczak (Polónia)