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Lá fora uivava canino o vento nas vidraças
escuras de noite,
cá dentro era a luz sonâmbula de uma vela
que quebrava o vazio no olhar dos vivos…
Surgiste, corpo coberto de silêncio
e, em silêncio,
foram os meus braços que te aconchegaram a pele.
Foram os meus lábios que procuraram a sede dos teus…
Refugiámo-nos lá onde o sono adormece
distraídos das horas
que enlouquecidas
fugiam do mostrador branco daquele relógio
que o tempo levava no regaço.

Lá fora o vento latia manso e brincava
às sombras com as primeiros raios de Sol da manhã;
Acordámos os corpos cobertos de ervas e folhas secas,
saciados de vida…
Só as nossas caras mortas de acordados
tentavam disfarçar o cansaço com máscaras de dia claro.

António Patrício

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fotografia / Ruth Bernhard (Alemanha)