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À luz primeira da madrugada,
um quase nada
no horizonte nascente,
o corpo ainda prisioneiro da noite,
pressente a inquietação do dia.
Vou distendendo os tendões
que me prendem a carne aos ossos.
Lá fora a pureza do espaço
começa a ser povoada
por apressados passos, murmúrios…
Escorre a respiração das pessoas
pelas ruas ainda mal acordadas.
Levanto-me em cuidados de cristal,
procuro a claridade cinzenta
que a chuva miúdinha teima em reter.
Olho a fria manhã para lá da janela
ainda consigo ver a noite a ser engolida
em lenta agonia pelo tempo que amanhece.
Perco-me em abstrações,
escuto apenas o teu respirar.
Demoro o pensar no vulto do teu corpo
ainda envolvido nos brandos panos…
Esqueço o relógio deixo-me embalar
pelo silêncio envolvente;
Respiro contigo as últimas notas
de abandono que a noite espalhou pelo quarto.

António Patrício

Ritual de abandono