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Normalmente espero por elas
indiferente à demora…
Sei que virão… vêm sempre!

Letra a letra vão aparecendo,
por vezes rabugentas, maldispostas;
cruas a implicar com tudo…
Expelem fogo e cinzas pelas ventas
Maldizem a branca página
na imensidão do vazio.
Noutros momentos vêm doces, amorosas;
insinuantes em dengosos requebros;
nuas, ainda a cheirar a sal das marés,
a feno dos montes, despentedas pelo vento…

Por onde foi a viagem nunca o sei;
também não pergunto;
pois que têm vida própria,
nada que seja da minha conta;
Mas é com elas que a madrugada se faz manhã,
a tarde engravida de luz
e a noite é povoada por abandonados gestos
onde amores vão para além dos corpos;
Ganha a vida, tempos…
horizontes de terra madura.

Tenho-as como companheiras
que me sustentam esperanças
e tristezas;
Com elas resgato alegrias,
atravesso profundas dores,
partilho angustias, desencantos,
alcanço segredos inimaginados,
afasto de mim as sombras estéreis
dos dias mortos…
E vivo!

Normalmente espero por elas
indiferente à demora…
Sei que virão…

António Patrício

Indiferente à demora