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Deixo-me ir atraído pelas luzes da cidade;
morro a cada instante deste invernoso momento.
Piso negras caravelas de pedra
que na branca calçada navegam,
perdidas para sempre das águas.

Atravesso ruas, contorno feridas antigas,
espreito de relance novas praças… deambulo.
A cada passo revejo a urbe suspensa;
triste abandono sofrida incredulidade;
já a memória não lhe reconhece as paredes.

Espalhados em ordeiro caos perdem-se os corpos;
difusos contornos de um sono inquieto;
carne em cartão embalada,
estilhaços humanos que me gritam;
Ruído ensurdecedor do que sou.

Volteio as noites, peregrinações repetidas
sem rumo destinado… Submersos passos
que me fazem pesar o andar de cansaço.
Ensaio regressos, aconchego os trapos
à amarga melancolia que transporto.

Perco a multidão; pressinto-me o último
homem na cidade.
Pernoito no meu corpo longe do desejo
da ilusória eternidade.
Vou aprendendo este doloroso ofício de viver.

António Patrício