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Abandonadas, no regaço, ambas pousadas,
as tuas mãos esperam,
movimentos,
sopros do vento norte.
Alheias ao que passa;
que passando foi acabado momento.

Rijas de terra, calejadas de barro
foram o negro pão dos teus dias.
Embalaram, desajeitadas,
carne do teu sangue,
foram lança
nos tempos obscuros
em que matar era desespero
e morrer obrigação,
fecundaram os elementos
em verdes campos,
foram fado e guitarra
com que cantaste a tua fome,
e de esperança ergueram bandeiras
no dia em que sonhaste mudar a tua condição.

Saudosas do sol que amadurece as espigas
vão envelhecendo,
por entre o fumo do cigarro.
Vai morrendo o engelhado corpo
que as sustem em escarrado catarro.
Brandas seguem os voos dos catraios,
em jardins por onde arrastas
os dias que te restam…
Apodrecimento baço em resignado silêncio.

António Patrício