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Tenho fome!
Transporto nas tripas as dores
de tão grande gafa.
Na garganta o grito contido
da revolta que me sufoca.

Falta-me o ar
a justiça…
Por onde anda
a igualdade?
Roubam-me o pão,
o suor do rosto,
o trabalho das mãos.
A dignidade tenho-a
coberta por trapos.
A vida por farrapos.
Da jorna pouco fica,
amargo níquel
que não me mata
a desdita.
À malga vejo-lhe o fundo
a cada caldo que verto…
Conto os ossos
em aritméticas envergonhadas.
Querem-me manso,
ignorante…
Marioneta aos caprichos
do mandante.
Dão-me a liberdade
de ser escravo.

Tenho fome…
Senhores, tenho fome!

António Patrício

Lamento negro

fotografia de Vivian Maier (EUA)