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Na cidade grande
cruzam-se ruas
umas largas outras menos
umas sobem outras não,
há largos, praças com gente,
de um lado para o outro, gestos lentos,
falam, riem, choram
vagueiam sem destino certo
numa fuga incerta.
Na cidade grande
há música atirada ao vento
malabares às esquinas
pedintes de olhar mortiço
vidas encadernadas a preço de saldo
palavras alinhadas em bancas clandestinas
esplanadas onde o corpo mata o tempo
numa indiferença ruminada.
Na cidade grande
negoceiam-se vidas
porta a porta
em filas ordenadas sem vontade
existências consumidas num tempo inútil
passam carros, lambretas, bicicletas…
gente com pressa,
respirar suspenso no desejo da chegada.
Grita o louco no meio das gentes indiferentes,
os namorados… namoram!
Abraços, beijos desesperados, nervosos,
anónimos.
Na cidade grande
há retratos captados no vazio,
fantasmas d’uma realidade
efémera,
gestos vulgares que se repetem
dia após dia, todos os dias,
rostos cegos do meu desgosto sofrido.

António Patrício