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Quando chegar a minha hora
quero o meu corpo abandonado,
livre,
numa cova ao meu tamanho.
Que seja virada a nascente
(quero ser o primeiro a saudar a manhã).
Mas,
o que quero mesmo é,
sobre a terra que me cobrir,
uma pedra…
lisa.

Branca ou preta, mas lisa
Sem letras gravadas, jarras ou flores
sem Cristos, cruz, (já me bastou a minha)
santinhos, alminhas
Branca ou preta, mas lisa…
E, já agora,
sem a imagem da sombra do que fui.

Para a jornada, que vai ser longa
uma rosa-dos-ventos
(para me encontrar)
dois ou três livros e música
(para matar o tempo)
Não se esqueçam …
Quero também
um sorriso
(para a viagem me ser mais fácil)
um pouco da noite
(para ver céu estrelado)
um calor de mulher
(vocês sabem para quê)
um pedaço da dor dos homens
(para me rir dos vivos)
Quero ainda…
(não se negam as últimas vontades de um homem)
a memória dos que amei
e um sopro de vento, uma gota de água
(para sentir a vida no rosto)

Mas não se preocupem
o que quero mesmo é uma pedra…
lisa…
nua e lisa.
É simples, não é? É só uma pedra!

António Patrício